23/11/2011

A HISTÓRIA E ARQUEOLOGIA DA TORRE DE BABEL

Um artigo publicado pela dupla de pesquisadores Roy Liran e Ran Barkai, da Universidade de Tel Aviv, no mês passado, abre a discussão sobre a veracidade da passagem bíblica de Génesis 11 que fala sobre a Torre de Babel. Ela teria existido ou não?
A descoberta em 1952, em Jericó, na Palestina, de uma torre de 8,5 metros seria a prova de que de facto a passagem bíblica é certa, esse edifício seria um dos primeiros arranha-céus da história da humanidade e poderia ter sido construído para servir o povo da proteção contra invasões ou como espaço para observação de astros e estrelas.
A recente pesquisa aponta para a possibilidade de que a edificação teria sido utilizada para prever catástrofes naturais – inundações, no caso – e abrigar os sacerdotes e os reis contra qualquer cataclismo natural.
Vere Gordon Childe, filólogo australiano especializado em arqueologia e autor da teoria da revolução
neolítica (a Idade da Pedra também é conhecida como Período Neolítico) afirma que a mudança da população saiu da Mesopotâmia, hoje Iraque, (onde a civilização teve inicio e também onde foi inventada a roda, a escrita e a agricultura) para Jericó devido as mudanças climáticas. Ali, fundaram um dos assentamentos urbanos mais antigos da Terra. Elas teriam chegado lá trazendo na memória um trauma dos seus ascendentes, a catástrofe diluviana.
Atualmente, já foram encontradas 31 ruínas de torres na Mesopotâmia. A de Jericó é a única naquela cidade. E o muro em torno dela está estruturado como uma espécie de dique.
O livro de Génesis relata que um grupo de pessoas vindo do Oriente habitou um vale em Sinar, hoje Iraque, e ergueu uma torre. Para punir a ousadia desses humanos que queriam tocar os céus, Deus fez com que eles falassem idiomas diferentes, tornando impossível a comunicação entre eles e os obrigando a migrar para outros lugares da Terra. Babel, em hebraico, significa confundir.
Um tablete de argila com escrita cuneiforme – um dos primeiros textos da humanidade, datado de 2500 a. C., encontrado no Iraque e traduzido em 1872 – traz um relato controvertido que parece ser um paralelo à história bíblica da Torre de Babel: “…seu coração se tornou mal… Babilônia submeteu os pequenos e os grandes. Ele (uma divindade) confundiu seus idiomas… o seu lugar forte, que por muitos dias eles edificaram, numa só noite ele trouxe abaixo.”
Outro texto cuneiforme, produzido em cerca de 2200 a. C. e publicado em 1968, faz menção de uma época em que havia “harmonia de idiomas em toda Suméria” e os cidadãos “adoravam ao deus Enlil numa só língua… o deus Enki, senhor da abundância… e o líder dos deuses… mudou a linguagem na sua boca e trouxe confusão a eles. Até então, a linguagem dos homens era apenas uma.”
A “Bíblia”, portanto, seria um elo entre a história da Torre de Jericó e as construções anteriores na Mesopotâmia. “Há elementos históricos para supor que algum tipo de dilúvio de proporções catastróficas ocorreu de fato, assim como uma Torre Babel”, diz o arqueólogo Rodrigo Pereira da Silva, que leciona no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). “A história da “Bíblia” tem plausividade arqueológica e histórica.”
Professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), André Chevitarese argumenta que a veracidade bíblica não se sustenta pela ciência, mas pela fé. Para ele, um especialista em história das religiões, o autor de Génesis, diante da multiplicidade de línguas e com os olhos repletos de religiosidade, lançou mão de uma narrativa que passa pela realidade para entender o mundo que o cercava. “Não estou invalidando o discurso bíblico, mas prefiro seguir a linha de pensamento dos teólogos alemães da primeira metade do século XIX. Influenciados pelo racionalismo, eles acreditam que o dilúvio, a Torre de Babel, Caim e Abel, Adão e Eva são formas de exprimir um Deus que age do ponto de vista literário.” O novo propósito atribuído à construção da Torre de Jericó pela dupla Liran e Barkai, da Universidade de Tel-Aviv, publicado na conceituada revista inglesa de arqueologia “Antiquity”, aproxima o contexto cultural com a Torre de Babel bíblica e abre espaço, se não para a certeza, para a possibilidade histórica de uma passagem das Sagradas Escrituras.
Iraque: O passado destruído
As muralhas da Babilónia recentemente construídas com a técnica e o mesmo material utilizado na antiguidade.
Maquete do centro da antiga Babilónia
Sem entrar no mérito da guerra EUA x Iraque, as terras que Bush mandou bombardear são, na quase totalidade, parte da Mesopotâmia, o berço da nossa civilização. Situada entre os rios Tigre e Eufrates, seu nome, em grego, significa região entre rios. A história do Iraque antigo é a história da Mesopotâmia. Aí se localizou a Caldéia, o Império Medo-Persa e a base do Império Assírio. Esta região, no Oriente Médio, é um imenso e importante sítio arqueológico e guarda relíquias e tesouros antigos, um imenso patrimônio histórico-cultural da humanidade.
Aspecto do Palácio de Verão do Rei Nabucodonosor II, construído recentemente na Babilónia. Tudo, inclusive o leão, é atual
O berço da civilização da Mesopotâmia foi a planície de Sumer, na zona meridional do Sinear. Desde o IV
milénio a região estava habitada por povos de origem asiana, chamados sumérios ou sumerianos. Foram eles que inventaram a escrita cuneiforme, que iria ser assimilada por todos os povos da Ásia Ocidental. Organizaram-se em cidades-Estados, dirigidas por reis, e disputaram a hegemonia da região em sucessivas guerras. A próspera e opulenta civilização sumeriana atraiu a ambição das tribos semitas do Deserto da Síria e da Arábia. A principal delas foi a dos acádios, que dominaram a região. Aí aconteceu uma coisa interessante: mesmo derrotados, os sumerianos impuseram sua cultura à do conquistador.
Babilónia
Versão de Bruegel, o velho, da Torre de Babel, o zigurate babilônico de Nabucodonosor. Do monumento original, restou apenas os alicerces
Na Mesopotâmia floresceu a cidade da Babilónia, talvez a mais famosa da história e da lenda. Seus também famosos Jardins Suspensos era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Segundo a Bíblia, foi onde construíram a Torre de Babel, que até hoje provoca nos homens uma estranha fascinação. As ruínas da Babilónia estão a 160 km a sudoeste de Bagdá, a cidade das "Mil e Uma Noites", cidade que conheceu a sua maior prosperidade como capital dos abássidas (séc. VIII-XIII ).
Babilónia (Bab-Ilu) significa "Porta de Deus", estando situada no estreito entre os bíblicos rios Tigre e Eufrates. Sua fundação deve ser atribuída aos acádios (2350-2150 a.C.) A 1ª dinastia amorreana estabeleceu-se aí em cerca de 1850-1530 a.C. Após muita luta com várias cidades, o Rei Hamurabi, sexto dessa dinastia, fez dela a sua capital, transformando-a no centro mais importante da Ásia Ocidental. Foi Hamurabi que nos legou o primeiro código da história conhecida.* Durante seu governo a fortificada capital do Reino da Babilónia, que tinha 3 milhões de habitantes, possuía inúmeros templos, palácios, era uma próspera, rica, colorida e agitada metrópole. Infelizmente as ruínas da Babilônia de Hamurabi não podem ser escavadas: encontram-se abaixo do nível das águas subterrâneas.
Durante o 2º milénio a.C., a Babilônia foi destruída pelos hititas (1531 a.C.) e submetida depois aos cassitas. A cidade tornou-se assíria (séc. VIII-VII a.C.) e foi reconstruída. No século VII a.C. Babilônia caiu nas mãos dos elamitas de Susa (hoje no Irã). O rei assírio Senaquerib reconquistou-a em 698 a.C. e promoveu a sua completa destruição. "Todos os habitantes foram passados pelas armas, todos os edifícios foram nivelados, o zigurute (espécie de torre sagrada) demolido, os canais aterrados com seus tijolos. A própria terra da Babilônia foi ritualmente transportada e jogada a todos os ventos. O Eufrates foi desviado do seu leito e conduzido sobre o campo de ruínas, inundando-o. E Senaquerib passou a reinar sem concorrente em Ninive, sua capital no Tigre".
Senaquerib seria assassinado em 681 a.C. e o novo rei, Asarhaddon começou a reconstrução de Babilônia. Mas, seu sucessor, Assurbanipal, destruiu-a de novo. Após o desaparecimento de Assurbanipal, uma dinastia independente chamada "Neobabilônia" estabeleceu-se na região. Seu fundador, o general caldeu Nabopolassar uniu-se aos medas, conquistou e destruiu Ninive para sempre. Enquanto governava como rei (626-605 a.C.), reconstruiu Babilônia pela 4ª vez. Foi o seu filho, Nabucodonosor (605-562), que transformou a cidade na capital mais luxuosa do mundo. Datam do seu reinado os principais monumentos da Babilónia.

A Harpa Real de Ur, toda em ouro, com 5 mil anos e Hércules, cobre do séc. II a.C., peças roubadas
Nabucodonosor conquistou Jerusalém em 597 a.C. e dez anos depois a destruiu completamente, levando os judeus ao Exílio Babilônico. Esse fato causou a ira dos Profetas do Velho Testamento, que escreveram aquilo que de fato viria a acontecer tempos depois, quase uma profecia: "Babilônia, a jóia dos reinos, glória e orgulho dos caldeus, será como Sodoma e Gomorra, quando Deus as transtornou. Nunca mais será habitada..." (Isaías, 13,19-22). "Mas a cidade não será mais destruída. Sofrerá a morte lenta pelo abandono dos séculos".
Babilónia foi tomada por Ciro, o Grande, Senhor da Pérsia (530 a.C.), assim narrando Nabonido: "Ciro entrou na Babilónia. O estado de paz foi imposto na capital inteira... Todos os habitantes inclinaram-se para ele e beijaram seus pés, jubilosos porque ele tinha atingido a realeza... e adoraram seu nome". Nos 200 anos que se seguiram, a cidade ficou em paz, mas entrou em decadência. Alexandre Magno entrou na cidade como herdeiro dos persas, escolheu-a como capital da Ásia e aí morreu em 323 a.C. A fundação de Selêuquia, depois, sugeriu uma sobrevida para a Babilônia, mas ela acabou de vez quando os selêucidas a abandonaram. Quando o imperador romano Sétimo Severo chegou à cidade, em 199 d.C., encontrou-a totalmente deserta.
A cidade
Heródoto, que lá esteve por volta de 420 a.C., assim a descreveu: "Babilônia está situada numa vasta planície, uma cidade imensa em forma de quadrado cujos lados medem 22 quilômetros, com uma circunferência de uns 73 quilômetros. O Eufrates corre pelo meio da cidade, dividindo-a em duas partes. O muro chega à água em ambos os lados, há outra muralha em cada margem. Há muitas casas de três ou quatro andares. As avenidas e ruas são retas, e para cada uma das ruas havia um portão de bronze pelo qual podia-se chegar ao rio". (Heródoto, Histórias, I ). À noite as ruas eram iluminadas por querosene, conforto que as cidades ocidentais só teriam no século XIX. A cidade tinha em volta cinco sistemas de muralhas consecutivas, com fossos e portões de cedro revestidos de cobre. A muralha do retângulo interior possuía uma espessura de 27 metros. O muro exterior protegia um areal que tinha uma superfície de 485 Km2.
O palácio do rei ficava no centro, uma fortaleza decorada com relevos coloridos de azulejos e, segundo Apocalipse, 18,16 - com "linho finíssimo, de púrpura e de escarlata, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas". Era neste palácio que ficava os Jardins Suspensos, os jardins de Semíramis, uma série de terraços subindo em degraus. A cidade sempre teve seu zigurate, via mística de comunicação dos homens com os deuses. O de Hamurabi devia ter a forma de uma pirâmide em degraus. Mas o maior de todos, conhecido como a verdadeira Torre de Babel, foi mandado construir por Nabucodonosor. Heródoto o descreveu. Sua base, a única coisa que restou, é um quadrado de 90 metros de lado. O primeiro degrau tinha 33 metros de altura; o segundo, 18 metros e os restantes seis metros cada um. No topo foi construído um templo para o Deus Marduk, revestido de azulejos azuis e com telhado de ouro. A torre tinha a altura de 90 metros.
Registros indicam que a cidade possuía 531 templos dedicados aos deuses, 180 santuários para Ishtar e 55 para Marduk, 600 santuários para as divindades dos céus, 300 para as da terra e 180 para os deuses considerados dos infernos. O maior templo, dizem, era o de Esangila, que media 500 metros de largura, com uma estátua de Marduk sentado num trono, tudo de ouro. Conta Heródoto que a quantidade de ouro empregado no templo chegava a 23 toneladas. Outro templo importante era o grande Templo de Ishtar, a deusa das manhãs e das noites, que também personificava o Planeta Vênus, sendo também a deusa do amor, de cujo culto fazia parte a "prostituição sagrada" . A Vênus era representada sob a forma de uma mulher em pé sobre dois leões: "a força submetida à beleza" . Para a deusa foi construída a Av. de Procissões, que tinha uma largura de 23 metros, fechada lateralmente com muros de 7 metros de altura revestidos de azulejos azuis com relevos de leões coloridos. A avenida levava ao Portão de Ishtar, com uma torre de ameias de azul brilhante com relevos coloridos de 500 touros e dragões.
Além dos sacerdotes e outras figuras, os astrólogos também estavam associados aos templos. Existia, segundo Franz Cumont, uma espécie de astrolatria que se baseava na predição dos movimentos dos astros, pois eles acreditavam que, se os astros regiam a vida, também poderiam prever o destino das pessoas. Foi na Babilónia que surgiu a astrologia.

Reconstrução
Em 1899 Robert Koldewey começou as escavações na Babilônia e encontrou a
grande muralha e o Portão de Ishtar, com seus azulejos coloridos. As peças mais importantes foram para vários museus, inclusive para o de Bagdá (agora saqueado) e especialmente para o de Berlim, onde o portão foi refeito. Na época não se cogitou reconstruir nada no sítio.
O sanguinário ditador Saddam Hussein, que alguma coisa de bom teria que fazer neste mundo, destinou cerca de 90 milhões de dólares, no final do século passado, para reconstruir e restaurar a antiga Babilónia, em nome da "reabilitação da monarquia e de valores antigos". Os princípios de construção e os materiais da época, seriam respeitados. Os Jardins Suspensos, a Torre de Babel, a Av. das Procissões e o Portão de Ishtar (os dois últimos já reconstruídos) estão renascendo para que a Babilônia tenha de volta todo o clima e o brilho do passado.

Desastre cultural
Depois da ocupação do Iraque pelas tropas americanas, aconteceu um dos maiores desastres culturais da história recente do Oriente Médio. O Museu de Bagdá foi saqueado, mais de 170 mil peças sendo roubadas ou destruídas, antiguidades de milhares de anos, uma perda irreparável para a humanidade. Não bastasse isso, as forças de ocupação permitiram também a depredação do sítio arqueológico da antiga Babilônia e o saque ao Museu de Hamurabi, naquela cidade. Entre as peças roubadas em Bagdá, estavam raridades como a harpa real de UR (toda em ouro) de 5 mil anos, estatueta de rei em ouro de 2 mil anos, um Hércules do século II a.C., a Deusa de Inana, de 5 mil anos, o rei sumério Entemena, de 4.600 anos, jóias e esculturas de ouro, além de tabletes de terracota com inscrições com os primeiros textos da humanidade. No Museu de Hamurabi, além da destruição ou furto das estátuas do rei, a imagem é de desolação, tudo quebrado.
A América, que há menos de 500 anos atrás era uma mistura de selvas e desertos ocupados por índios selvagens, mesmo com seu atual poderio bélico e econômico, é muito pequena diante de 7 mil anos de civilização. Talvez por isso os americanos deixaram saquear o Museu de Bagdá e a cidade da Babilônia. O que todos desejam é que, diante do repúdio mundial, os americanos e ingleses, com toda a ajuda que puderem obter, consigam recuperar alguma coisa. E também que, na reconstrução do Iraque prometida por George Bush, ele dê continuidade ao projeto de restauração da Babilônia, a única coisa realmente boa feita por Saddam que temos notícia.
* O código, a mais antiga coleção de leis conhecida, está gravado numa estela cilíndrica de diorito, descoberta em Susa (1901) e está no Museu do Louvre.
Segundo o Antigo Testamento (Génesis 11,1-9), torre construída na Babilónia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes. A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu. Esta soberba provocou a ira de Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.

Este mito é, provavelmente, inspirado na torre do templo de Marduk, nome cuja forma em hebraico é Babel ou Bavel e significa "porta de Deus". Hoje, entende-se esta história como uma tentativa dos povos antigos de explicarem a diversidade de idiomas. No entanto, ainda restam no sul da antiga Mesopotâmia, ruínas de torres que se ajustam perfeitamente à torre de Babel descrita pela Bíblia.

Não foi exatamente nas planícies áridas da Mesopotâmia que Pieter Brueghel, o Velho, localizou sua pintura a óleo Torre de Babel (1563), mas nas terras baixas e férteis de Flandres. Sem dúvida, os estudos que muitos artistas realizaram sobre o Coliseu de Roma proporcionaram o modelo para este edifício de arcos superpostos. Muitos arqueólogos relacionam o relato bíblico da Torre de Babel com a queda do famoso templo-torre de Etemenanki, na Babilónia, depois reconstruído pelo rei Nabopolasar e o seu filho Nabucodonosor II. Dizem também que a torre foi um zigurate, uma construção piramidal escalonada.

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