15/09/2010

CONSTRUÇÕES DE HERODES

TIBÉRIO
PILATOS
O projecto mais prestigioso que Herodes empreendeu foi a construção de um novo porto marítimo perto de Cesaréia (assim chamada em homenagem a Júlio César). Foi uma das maiores cidades construídas até então, sob o reinado de um só rei. Havia muito tempo que este lugar era conhecido pelo seu imponente teatro, que proporcionava uma vista para o mar e pelo seu notável aqueduto. Mas só quando se realizaram as escavações mais recentes é que se começou a trazer à luz do dia a vasta cidade herodiana. A cidade tinha sido construída ao redor do porto. Mergulhadores arqueólogos provaram que se tratava do porto mais importante do império romano nessa época. A entrada era guardada por enormes estátuas e nele podiam atracar mais de cem navios. Tendo em conta o facto de que a costa da Palestina, a sul de Haifa, não tem portos naturais, a construção do porto artificial de Cesaréia foi uma verdadeira proeza.
Uma longa fila de armazéns, protegidos por cúpulas, ladeava o porto. Um deles albergava um lugar sagrado e secreto dedicado à deusa Mitra. O culto de Mitra, divindade de origem persa, era muito popular entre os soldados romanos. Os rituais persas foram adoptados pelos romanos e espalharam-se pelo mundo inteiro. O Metreum encontrado em Cesaréia é o único descoberto na Palestina.
Canalizações subterrâneas tiravam partido das marés do Mediterrâneo para evacuar os detritos. Uma rua larga, ladeada por colunas, atravessava a cidade. Calculou-se que esta rua, por si só, continha milhares de colunas. Junto à cidade, encontrava-se o hipódromo, onde se desenrolavam as corridas de carros e de cavalos, como na maioria das cidades romanas.
Pouco depois da morte de Herodes, Cesaréia tornou-se a sede do governo da Siro-Palestina. Depois de ser preso, Paulo foi conduzido a Cesaréia, para um interrogatório feito pelo governador Festo. Foi, também, desta cidade que ele partiu para Roma.
1. O drama de Masada.
Muitas das construções edificadas em Jerusalém eram de utilidade pública. Mas o monarca também mandou construir edifícios para seu prazer pessoal. Foi para isso que mandou edificar quatro palácios em lugares diferentes. O mais célebre é, provavelmente, o que foi construído sobre o rochedo inexpugnável de MASADA. Arqueólogos israelitas fizeram aí escavações intensas. Este lugar é visitado diariamente por centenas de turistas. Por causa da sua ambição e da sua amizade com Marco António, Herodes teve de enfrentar a inveja de Cleópatra, a célebre rainha do Egipto que conseguiu influenciar vários imperadores romanos. Herodes mandou construir Masada sobre um promontório rochoso de 300 m de altura, perto do mar Morto. Penava servir-se desse lugar como refúgio contra um eventual ataque mandatado por Cleópatra. O palácio foi decorado num estilo que lembrava o de Pompeia. As termas eram abastecidas de água quente e fria proveniente de enormes tanques talhados na rocha e que podiam recolher a água das raras chuvas de Inverno. Herodes nunca utilizou este palácio como refúgio. Mas foi o refúgio dos combatentes nacionalistas judeus, depois da queda de Jerusalém, no ano 70 da nossa era. O seu suicídio colectivo, no ano 73, pouco antes de o exército romano destruir as muralhas, foi relatado por Flávio Josefo e é confirmado pela arqueologia. Ficamos impressionados, tanto perante a coragem e a tenacidade dos sitiados como com a crueldade com que os romanos sufocaram a revolta.
2. O Heródito.
No cimo de uma colina chamada Heródio, Herodes mandou construir um palácio com termas, quartos de visitas, uma sala de recepções, um grande pátio interior e muitas outras divisões mais modestas. Foi aí que ele quis ser enterrado.
A colina, elevada artificialmente, é visível de Jerusalém, quando se olha para Sul. O palácio foi construído de maneira a ficar rodeado de colinas que serviam literalmente de muralhas.
3. Jericó e Maqueronte.
Os invernos em Jerusalém podem ser frios. Mas em Jericó, situada no vale do Jordão, a temperatura é quase tropical, devido à sua situação próxima no nível do mar. foi aí que Herodes mandou construir o seu palácio de Inverno, incluindo um grande complexo balnear, que utilizava a água de um oásis próximo. Uma equipa americana revelou o palácio e descobriu grandes piscinas. Josefo escreve que Herodes sofria de diversas doenças crónicas. Era frequentemente obrigado a sair de Jerusalém e ir a Jericó, onde podia aliviar as suas dores com banhos terapêuticos. Consta que morreu em grande sofrimento.
Um outro palácio, chamado Maqueronte, foi construído nas montanhas a Leste do Mar Morto. Este lugar apresenta muitas semelhanças com o Heródio. Foi neste lugar que João Baptista foi decapitado, a pedido de Salomé, enteada de Herodes.
Foi, em grande parte, graças às realizações de Herodes o Grande que a paisagem arquitectónica da Judeia evoluiu e melhorou. Jerusalém e Cesaréia eram os dois centros importantes. No entanto, no tempo de Jesus, o país já não era governado por um rei loca., as directamente por Roma. Herodes foi o último grande monarca. Os seus filhos governaram, cada um, um território próprio, mas nunca o seu poder igualou o do seu pai.

09/09/2010

A GALILEIA

Cafarnaum, pode ver-se nesta vista aérea a antiga aldeia e
os vestígios das construções.
A Galileia foi um centro judaico importante no tempo de Jesus, ma não tirou partido das actividades de construção durante o reinado de Herodes. Separada da Judeia pela Samaria, era mais pobre e menos desenvolvida. Nazaré, onde Jesus passou a Sua infância, era uma aldeia pobre. Muito poucas coisas datadas da época romana resistiram ao tempo. Os eventuais vestígios da época ficaram inacessíveis, devido à construção de novos edifícios. Sabemos, por isso muito pouco sobre a aldeia onde Jesus passou a Sua juventude.
A cidade romana mais importante da Galileia era Tiberíades. Estava situada na margem ocidental do lago da Galileia. Escavações revelaram que, com efeito, a cidade era um centro importante, que incluía um certo número de grandes edifícios e uma porta monumental.
Uma grande parte do ministério de Jesus desenrolou-se na margem norte do lago da Galileia, perto de Cafarnaum. Como o próprio nome indica (Kafar = aldeia), Cafarnaum não era mais do que uma aldeia. As casas eram construídas com pedras de basalto escuro. Uma vez que só os ricos podiam dar-se ao luxo de pintar essas pedras de branco, a aldeia devia ter um aspecto bastante sombrio. A impressão de pobreza sugerida pelos evangelhos é confirmada pela arqueologia. Conseguimos imaginar facilmente que os habitantes estivessem abertos à mensagem de esperança de Jesus e que numerosos doentes esperassem a cura.
Sinagoga frequentada por Jesus e onde pregava.
O lago da Galileia está rodeado de montanhas por todos os lados. O lago de água límpidas reflectia o céu azul e alegrava os visitantes. Mas, por causa das colinas que o rodeavam, as tempestades invernais podiam abater-se sobre ele com uma rapidez e uma força inesperadas. Os relatos bíblicos que contam as experiências de Jesus e dos Seus discípulos neste lago, suspendidos pela tempestade, tornam-se muito mais realistas e tangíveis. Hoje, graças às tecnologias modernas em matéria de meteorologia, os pescadores podem trabalhar em condições mais seguras.
Em Janeiro, 1986, Moshe e o seu irmão Yuval contemplavam o Mar de Galileia e notaram uma sombra estranha amoldada no chão do lago.
Barco de "Pedro". Cafarnaum era a aldeia de Pedro e
onde Jesus curou a sua sogra.
O Mar estava perigosamente baixo, devido a uma seca severa, e esta era a primeira vez que Moshe e Yuval – ambos, modernos pescadores diários – puderam ver o fundo do mar, tão claramente.
O que o Moshe e Yuval viram era a forma de um barco, cujo significado arqueológico só seria confirmado na década seguinte.
O governo israelita emitiu uma ordem especial para, "baixar o nível do Mar da Galileia para preservar o barco do primeiro século que foi achado no fundo do mar. Porém, em lugar de fazer assim, um dique foi construído para bombear água para fora da área; desse modo, a equipa de escavações trabalhou cuidadosamente para preservar a arte do primeiro século. Hoje, o barco pode ser visto num museu especialmente construído no Kibbutz Ginossar, no Mar de Galileia.

02/09/2010

A CRUCIFICAÇÃO

NO tema sobre os Assírios referimos que eles empalavam os seus prisioneiros de guerra. A crucificação, o facto de atar ou pregar uma vítima a um poste, pode muito bem ter-se desenvolvido a partir dessa prática. Os romanos aplicavam este suplício extremamente cruel principalmente aos rebeldes e aos escravos. Milhares de escravos que trabalhavam na Via Appia, em Itália, foram crucificados quando se revoltaram contra os capatazes. Na época de Jesus, a crucificação era um suplício capital frequentemente aplicado.
Em Jerusalém, as escavações permitiram encontrar o esqueleto de um homem crucificado. Podem ver-se os restos de um grande prego que atravessava os seus pés. Um exame minucioso do esqueleto demonstrou a crueldade da crucificação praticada pelos romanos. Em vez de utilizar dois pregos (um para cada pé) utilizavam apenas um, ao contrário do que se pode ver na maior parte das obras de arte. Depois de deitar a vítima sobre a cruz, os dois pés eram juntos na sua posição norma. Em seguida, eram inclinados a 90º e espetavam um prego que passava pelos dois tornozelos, o que era particularmente doloroso.
Seria menos cruel se pregassem os pulsos e deixassem os pés livres. O peso de uma vítima pregada apenas pelos pulsos, com os braços estendidos, teria tornado muito difícil a respiração. A cabeça pendida para a frente teria acelerado a asfixia da vítima no espaço de alguns minutos. Ao pregarem também os pés, garantia-se uma agonia muito dolorosa, que se prolongava, por vezes, durante horas. Os pregos que atravessavam os pés não só causavam uma dor intensa, mas prolongavam também o sofrimento. No entanto, por vezes a crueldade romana tinha limites. Se, passadas algumas horas, a vítima não tivesse ainda morrido, partiam-lhe as pernas. Uma vez perdido esse apoio, o condenado morria rapidamente por asfixia. Foi o que aconteceu aos dois ladrões crucificados de cada lado de Jesus (João 19:32). Mas, no caso de Jesus, os sofrimentos experimentados antes e durante a Sua crucificação contribuíram para uma morte mais rápida (João 19:33).

31/08/2010

UMA PEDRA A TAPAR O TÚMULO

Segundo os evangelhos, Jesus foi sepultado no túmulo familiar da família de José de Arimateia. Esse túmulo foi fechado com a ajuda de uma grande pedra redonda. Na Palestina, foram encontrados muitos túmulos deste tipo, datados do tempo dos romanos. Pertencendo a famílias ricas, eles eram talhados na rocha. Depois de terem rolado a pedra, para o que era necessária a força de várias pessoas, o corpo era introduzido num túmulo rectangular. As paredes tinham várias cavidades profundas, os ´loculi´, onde os corpos eram colocados. Um túmulo podia conter entre nove e dezoito destes ´loculi´. Os sepulcros da famílias ricas podiam ser compostos por vários túmulos, com vários ´loculi´cada um e formando uma espécie de catacumba. Foi provavelmente numa sepultura desse tipo que Jesus foi depositado. Se imaginarmos o peso das pedras que fechavam os túmulos, podemos compreender o espanto dos guardas quando constataram que a pedra tinha sido rolada e que o corpo tinha desaparecido. Uma vez que essa acção necessitava da intervenção de várias pessoas, os guardas teriam, necessariamente, de acordar. Esse pormenor confirma indirectamente o aspecto sobrenatural da ´evasão´de Jesus.
Ao longo dos séculos, a localização do túmulo de Cristo foi objecto de infindáveis discussões. Desde o século IV e da época da rainha Helena, mãe do imperador Constantino, a maioria dos cristãos achava que o túmulo de Jesus estava situado perto da Igreja do Santo Sepulcro, construída pelos Cruzados no interior da cidade velha de Jerusalém. No século XIX, os estudiosos deram-se conta de que a Bíblia dizia que o lugar do suplício, o monte Gólgota, era fora da cidade. a Igreja do Santo Sepulcro deixou, portanto, de ser considerada como o lugar onde Jesus tinha sido sepultado.
Numa das suas visitas a Jerusalém, o general Gordon, o herói britânico de Cartoum, notou que um rochedo, no exterior, muito próximo das muralhas, tina a forma de uma caveira. Sabendo que o nome ´Gólgota´ significa ´caveira´, deduziu que aquela colina era o famoso monte Gólgota e que um dos túmulos descobertos nas proximidades devia ser o de Jesus. O túmulo mais notável recebeu o nome de ´túmulo do jardim´. Crentes protestantes preparam ali um jardim, para facilitar a meditação dos peregrinos.
O ´túmulo do jardim é o lugar por excelência para meditar na vida e na morte de Cristo. Mas indícios claros levam à conclusão de que o túmulo é nitidamente mais recente do que a época de Jesus. Por seu lado, o rochedo só recebeu a sua forma de caveira no século XVI da nossa era, quando os turcos talharam pedras nesta região. Podemos, portanto, afirmar com segurança, que este não é o túmulo de Cristo.
Pesquisas arqueológicas feitas na Cidade Velha e nas proximidades da Igreja do Santo Sepulcro demonstraram que, na época de Jesus, este lugar estava fora das muralhas de Jerusalém. Os muros actuais que rodeiam a Igreja foram construídos séculos mais tarde. A maioria dos especialistas está hoje convencida de que o lugar do Santo Sepulcro é realmente o lugar onde estava situado o túmulo de Cristo, ou, pelos menos, nas proximidades.
Hoje, temos praticamente a certeza de que o traçado da Via Dolorosa, estabelecido pelos Cruzados como sendo o trajecto seguido por Jesus desde Pilatos até ao Gólgota, carregando a cruz, não é o correcto. Pilatos não residia na fortaleza Antónia, onde começa a Via Dolorosa, mas num dos outros palácios de Herodes.

18/08/2010

A MESOPOTÂMIA

A palavra Mesopotâmia vem de duas palavras gregas que significam “entre dois rios”. Ela encontra-se, de facto limitada pelo Eufrates a Oeste e pelo Tigre a Este. Estes rios têm ambos a sua origem nas montanhas no Leste da Turquia, a Sul do Mar Negro, onde a neve de Inverno derrete rapidamente na Primavera. Nos meses de Abril e Maio, o nível de água destes rios aumenta consideravelmente, sem no entanto inundar a região, como acontecia no caso do Nilo, no Egipto. O Eufrates é mais comprido, mas o seu caudal e inferior ao do Tigre, que recebe muita água da cordilheira de Zagros situada mais a Este. Devido ao seu desnível, que é muito grande, o Tigre é de difícil navegação. É por essa razão que o Eufrates teve um papel tão importante no desenvolvimento da civilização.
No seu sentido mais restrito, a designação “Mesopotâmia” abrange a zona situada entre os dois rios, mas o nome é geralmente utilizado para indicar toda a região que depende da sua drenagem. Quando falamos da civilização mesopotâmica, podemos referir os sumérios que, no terceiro milénio antes da nossa era, habitavam na parte Sul da Mesopotâmia, a Sul da actual cidade de Bagdad. Mas também podemos fazer alusão aos Babilónios instalados na mesma região no segundo e no primeiro milénios. Ou ainda aos Assírios, que ocuparam a parte Norte do rio Tigre durante este mesmo período. E não esqueçamos os habitantes da região de Ararat nas montanhas a Leste da Turquia, no fim do segundo e início do primeiro milénio. Os Elamitas viviam nos desertos ricos em petróleo a Leste de Babilónia e da Suméria. Os Persas, vindos de Leste, estabeleceram-se nas imediações de Babilónia e em Elam, depois de terem vencidos os Babilónios no séc. VI a.C.. Mencionemos, por fim, os Amoritas, as tribos arameias, os habitantes de Ebla, os Coritas e os Hititas que ocuparam todos a região onde o Eufrates tem a sua nascente, mas em épocas diferentes.
boi, símbolo de fertilidade e agricultura
Foi certamente esta combinação da sua localização geográfica e do seu clima ameno que favoreceu o aparecimento destas civilizações importantes na Mesopotâmia. Graças aos rios, a comunicação tornou-se fácil nesta vasta região. O clima muito seco obrigava os povos a confiarem nas cheias regulares para irrigar os campos. Eram obrigados a colaborar a fim de que cada um pudesse dispor desta água vital. Eis as razões que conduziram ao aparecimento e desenvolvimento de uma das civilizações mais avançadas da história da humanidade.

15/08/2010

OS SUMÉRIOS

Os cinco primeiros livros da Bíblia, denominados Pentateuco, falam em grande parte das leis de Moisés. Os livros de leis eram muito importantes na Mesopotâmia, pensemos por exemplo no código de Hamurabi, rei da Babilónia. As colecções mais antigas de leis provêm da Suméria. Uma delas, escrita durante o reinado de Ur-Nammu da terceira dinastia de Ur (cerca de 2 000 a.C.), prevê coimas em vez da lei do talião (olho por olho) que encontramos na lei de Moisés. Embora haja diferenças das leis da Bíblia, encontramos muitas analogias entre a moral suméria e a bíblica. Num dos textos, podemos ler uma descrição da deusa Nanshe: “Aquela que conhece o órfão e a viúva, aquela que conhece a forma como um homem oprime outro… É Nanshe quem cuida da viúva e quem trabalha em prol dos direitos dos mais pobres.” Encontramos um teor semelhante em Isaías 1:23: “Os teus príncipes são rebeldes e companheiros dos ladrões; cada um deles ama o suborno e corre atrás de recompensas. Não defendem o direito do órgão nem chega perante eles a causa das viúvas.”
A lista de valores morais dos Sumérios assemelha-se muito à lista de normas bíblicas: verdade, paz, justiça e aversão aos enganos, guerras, queixas e angústias. Os Sumérios acreditavam, tal como também é indicado na Bíblia, que o homem era feito de barro “à imagem dos deuses.” Mas, ao contrário do relato da Criação, segundo eles o homem deveria permanecer imperfeito. No seu ponto de vista, os deuses não diriam jamais “está bem”. Eles pensavam que um só deus tinha criado seis tipos de seres anormais. Isso implica que, para os Sumérios, o sofrimento fazia parte da criação, enquanto que na Bíblia o sofrimento está ligado à queda do homem.
Face ao sofrimento…
O livro de Job é uma obra literária importante sobre o sofrimento humano. Os Sumérios tratam deste problema num relato que se assemelha muito ao livro de Job. O relato salienta a única saída para quem pensa estar a sofrer injustamente: glorificar a Deus e suplicar-Lhe que escute as orações. O herói da história era rico, sábio e justo, mas ficou doente. Ele perseverou nas suas orações ao seu deus que, finalmente, as atendeu. Tudo leva a crer que o problema de Job era tão actual para os povos da antiguidade como é para o homem moderno.
Muitos outros paralelismos com a Bíblia situam-se na esfera da vida quotidiana. “É nosso destino morrer, gastemos pois as nossas posses” assemelha-se curiosamente a “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (Isaías 22:13). “O sono do trabalhador é doce” vai no mesmo sentido do que é dito em Eclesiastes (5:12): “Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito (…)”
Recordações do Éden
A Bíblia situa o jardim do Éden no Oriente. Embora não conheçamos a sua localização exacta, admitimos geralmente que se possa ter situado na Mesopotâmia. Os Sumérios conservaram a recordação desse inicio paradisíaco a que chamavam Dilmun, o que corresponde talvez à ilha de Bahrein. Existem muitas semelhanças entre Dilmun e o Éden. A água de Dilmun provinha de uma fonte. As mulheres davam à luz sem dor e um dos habitantes dói amaldiçoado depois de ter comido plantas proibidas. No entanto, também existem grandes divergências. A mais importante de todas era que o paraíso sumério não se destinava aos humanos, mas apenas aos deuses. Apesar destas divergências, as analogias reforçam a ideia de que a história bíblica não é uma invenção.
Um outro texto sumério fala do deus Dumuzi, que morreu e desceu ao inferno. Pouco depois, ressuscitou. A ideia de salvação e de ressurreição para uma vida de perfeição futura é uma ideia fundamental na fé bíblica. Os homens dos tempos bíblicos aspiravam de tal forma a uma ressurreição que procuravam preservar o culto a Dumuzi, mesmo que sob uma forma corrompida. O profeta Ezequiel fala disso e pronuncia palavras severas de condenação. O princípio bíblico da ressurreição não se baseia nas ideias dos Sumérios, mas as duas concepções reflectem sem qualquer dúvida o objectivo final de Deus para o homem.
As semelhanças entre a mais antiga civilização da Mesopotâmia e a Bíblia não provam os princípios da fé cristã nem mesmo a fiabilidade histórica dos relatos bíblicos. Todavia, é tranquilizador constatar que o ensino bíblico que é importante para nós e reflecte na história de outros povos. Podemos presumir que a humanidade conhecia e apreciava os relatos que descreviam a formação do mundo. Muitos cristãos têm a convicção de que a Bíblia transmite essas histórias na sua forma mais pura. O facto de outras civilizações, como os Sumérios, terem conhecimento de relatos semelhantes só pode fortalecer a fé dos cristãos na veracidade da Palavra.

08/08/2010

AKKAD E BABILÓNIA

Os primeiros impérios semitas da Mesopotâmia foram os da dinastia de Akkad, seguidor da primeira dinastia babilónica. Embora algumas cidades sumérias controlassem vastas regiões, nunca tingiram a superfície desses impérios. Sargão o Grande, que viveu por volta de 2300 a.C., foi o fundador do primeiro império que se estendeu do Golfo Pérsico até ao Mediterrâneo. O relata do seu nascimento é muito semelhante ao do nascimento de Moisés. Ele é apresentado numa “arca” e depositado no rio. Um pescador encontra-o, adopta-o e cria-o como seu próprio filho.
Os amorreus.
Os reis acadianos que reinaram depois de Sargão, mencionaram um número importante de tribos habitantes do Noroeste da Mesopotâmia (o Norte da Síria actual). Eles denominavam-nos Amorreus, “o povo do Oeste”. Essas tribos, a que a Bíblia chama Amoritas, migraram em massa em duas direcções. Uma parte emigrou para o Sul, em direcção à Palestina, enquanto a outra se dirigiu para o Sul da Mesopotâmia. Para se protegerem contra eles, os acadianos construíram muralhas fortificadas. Em vão. Continuando a chegar em massa, os Amorreus conseguiram finalmente apoderar-se de várias cidades, entre elas a de babilónia. O rei Hamurabi foi um desses Amoritas. Veremos num outro estudo que Abraão, o patriarca, foi provavelmente também Amorita.
Amurabi e as suas leis.Depois de se tornar rei de Babilónia, Haburabi explorou ao máximo a força dos seus exércitos. Ao transmitir informações políticas contraditórias por intermédio dos seus embaixadores, conseguiu confundir os outros monarcas e acabou por conquistar toda a Mesopotâmia. É durante o período de paz que se seguiu a estes acontecimentos que Hamurabi promulgou as suas célebres leis. Na antiguidade, o seu código foi o documento legal mais vastamente reconhecido. Foram encontradas (Seria um monumento monolítico talhado em rocha de diorito, sobre o qual se dispõem 46 colunas de escrita cuneiforme acádica, com 282 leis em 3.600 linhas. A numeração vai até 282, mas a cláusula 13 foi excluída por superstições da época. A peça tem 2,5 m de altura, 1,60 metro de circunferência na parte superior e 1,90 na base.) cópias destas leis em vários locais, desde Nínive na Assíria até Susa em Elam. Um grande número dessas leis é relativamente semelhante às leis mosaicas da Bíblia. Mas nenhuma é idêntica ao Decálogo. As leis de Moisés e de Hamurabi taram de casos concretos. Trata-se menos de leis do que de directivas para os juízes. Se alguém cometesse um delito, deveria receber uma punição adequada. Este tipo de leis dá mais relevância à aplicação de punições justas do que à prevenção do mal. No entanto, é evidente que, para evitar as punições, era melhor não cometer o delito. Os dez Mandamentos da Bíblia são particulares e únicos. Denominamo-los “leis apodícticas”, porque apresentam interdições e avisos claros. As analogias entre certas leis e mitos babilónicos por um lado, e as prescrições mosaicas e outros elementos bíblicos por outro, levaram a conclusões surpreendentes no final do século XIX. Assim, supunha-se que a Bíblia era uma adaptação das leis e das histórias babilónicas. Não há qualquer prova que suporte esta teoria. Seria mais lógico acreditar que ambas provêm de uma fonte comum: a revelação divina à humanidade. Enquanto os patriarcas conservaram as mensagens de Deus na sua forma original, a tradição babilónica deformou-as e adaptou-as às suas próprias necessidades. Seja como for, as semelhanças entre as leis de Moisés e as de Hamurabi ajudam-nos a situar melhor os livros de Moisés no seu contexto histórico. As leis de Moisés enquadram-se perfeitamente no período e no meio cultural mencionado pela Bíblia.
A primeira dinastia babilónica subsistiu cerca de duzentos anos. Durante esses dois séculos, Babilónia tornou-se o maior centro de civilização na Mesopotâmia. A sua fama foi tal que conseguiu manter a sua reputação de centro da ciência e da cultura durante quase dois mil anos, mesmo quando outras cidades ou outros impérios controlaram a região. Por isso, não é de admirar que Babilónia se tenha tornado um símbolo importante na Bíblia. Babilónia pode não ter sido a cidade mais poderosa de todos os tempos, mas do ponto de vista cultural, foi, certamente, a mais célebre do mundo antigo.