15/08/2010

OS SUMÉRIOS

Os cinco primeiros livros da Bíblia, denominados Pentateuco, falam em grande parte das leis de Moisés. Os livros de leis eram muito importantes na Mesopotâmia, pensemos por exemplo no código de Hamurabi, rei da Babilónia. As colecções mais antigas de leis provêm da Suméria. Uma delas, escrita durante o reinado de Ur-Nammu da terceira dinastia de Ur (cerca de 2 000 a.C.), prevê coimas em vez da lei do talião (olho por olho) que encontramos na lei de Moisés. Embora haja diferenças das leis da Bíblia, encontramos muitas analogias entre a moral suméria e a bíblica. Num dos textos, podemos ler uma descrição da deusa Nanshe: “Aquela que conhece o órfão e a viúva, aquela que conhece a forma como um homem oprime outro… É Nanshe quem cuida da viúva e quem trabalha em prol dos direitos dos mais pobres.” Encontramos um teor semelhante em Isaías 1:23: “Os teus príncipes são rebeldes e companheiros dos ladrões; cada um deles ama o suborno e corre atrás de recompensas. Não defendem o direito do órgão nem chega perante eles a causa das viúvas.”
A lista de valores morais dos Sumérios assemelha-se muito à lista de normas bíblicas: verdade, paz, justiça e aversão aos enganos, guerras, queixas e angústias. Os Sumérios acreditavam, tal como também é indicado na Bíblia, que o homem era feito de barro “à imagem dos deuses.” Mas, ao contrário do relato da Criação, segundo eles o homem deveria permanecer imperfeito. No seu ponto de vista, os deuses não diriam jamais “está bem”. Eles pensavam que um só deus tinha criado seis tipos de seres anormais. Isso implica que, para os Sumérios, o sofrimento fazia parte da criação, enquanto que na Bíblia o sofrimento está ligado à queda do homem.
Face ao sofrimento…
O livro de Job é uma obra literária importante sobre o sofrimento humano. Os Sumérios tratam deste problema num relato que se assemelha muito ao livro de Job. O relato salienta a única saída para quem pensa estar a sofrer injustamente: glorificar a Deus e suplicar-Lhe que escute as orações. O herói da história era rico, sábio e justo, mas ficou doente. Ele perseverou nas suas orações ao seu deus que, finalmente, as atendeu. Tudo leva a crer que o problema de Job era tão actual para os povos da antiguidade como é para o homem moderno.
Muitos outros paralelismos com a Bíblia situam-se na esfera da vida quotidiana. “É nosso destino morrer, gastemos pois as nossas posses” assemelha-se curiosamente a “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (Isaías 22:13). “O sono do trabalhador é doce” vai no mesmo sentido do que é dito em Eclesiastes (5:12): “Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito (…)”
Recordações do Éden
A Bíblia situa o jardim do Éden no Oriente. Embora não conheçamos a sua localização exacta, admitimos geralmente que se possa ter situado na Mesopotâmia. Os Sumérios conservaram a recordação desse inicio paradisíaco a que chamavam Dilmun, o que corresponde talvez à ilha de Bahrein. Existem muitas semelhanças entre Dilmun e o Éden. A água de Dilmun provinha de uma fonte. As mulheres davam à luz sem dor e um dos habitantes dói amaldiçoado depois de ter comido plantas proibidas. No entanto, também existem grandes divergências. A mais importante de todas era que o paraíso sumério não se destinava aos humanos, mas apenas aos deuses. Apesar destas divergências, as analogias reforçam a ideia de que a história bíblica não é uma invenção.
Um outro texto sumério fala do deus Dumuzi, que morreu e desceu ao inferno. Pouco depois, ressuscitou. A ideia de salvação e de ressurreição para uma vida de perfeição futura é uma ideia fundamental na fé bíblica. Os homens dos tempos bíblicos aspiravam de tal forma a uma ressurreição que procuravam preservar o culto a Dumuzi, mesmo que sob uma forma corrompida. O profeta Ezequiel fala disso e pronuncia palavras severas de condenação. O princípio bíblico da ressurreição não se baseia nas ideias dos Sumérios, mas as duas concepções reflectem sem qualquer dúvida o objectivo final de Deus para o homem.
As semelhanças entre a mais antiga civilização da Mesopotâmia e a Bíblia não provam os princípios da fé cristã nem mesmo a fiabilidade histórica dos relatos bíblicos. Todavia, é tranquilizador constatar que o ensino bíblico que é importante para nós e reflecte na história de outros povos. Podemos presumir que a humanidade conhecia e apreciava os relatos que descreviam a formação do mundo. Muitos cristãos têm a convicção de que a Bíblia transmite essas histórias na sua forma mais pura. O facto de outras civilizações, como os Sumérios, terem conhecimento de relatos semelhantes só pode fortalecer a fé dos cristãos na veracidade da Palavra.

08/08/2010

AKKAD E BABILÓNIA

Os primeiros impérios semitas da Mesopotâmia foram os da dinastia de Akkad, seguidor da primeira dinastia babilónica. Embora algumas cidades sumérias controlassem vastas regiões, nunca tingiram a superfície desses impérios. Sargão o Grande, que viveu por volta de 2300 a.C., foi o fundador do primeiro império que se estendeu do Golfo Pérsico até ao Mediterrâneo. O relata do seu nascimento é muito semelhante ao do nascimento de Moisés. Ele é apresentado numa “arca” e depositado no rio. Um pescador encontra-o, adopta-o e cria-o como seu próprio filho.
Os amorreus.
Os reis acadianos que reinaram depois de Sargão, mencionaram um número importante de tribos habitantes do Noroeste da Mesopotâmia (o Norte da Síria actual). Eles denominavam-nos Amorreus, “o povo do Oeste”. Essas tribos, a que a Bíblia chama Amoritas, migraram em massa em duas direcções. Uma parte emigrou para o Sul, em direcção à Palestina, enquanto a outra se dirigiu para o Sul da Mesopotâmia. Para se protegerem contra eles, os acadianos construíram muralhas fortificadas. Em vão. Continuando a chegar em massa, os Amorreus conseguiram finalmente apoderar-se de várias cidades, entre elas a de babilónia. O rei Hamurabi foi um desses Amoritas. Veremos num outro estudo que Abraão, o patriarca, foi provavelmente também Amorita.
Amurabi e as suas leis.Depois de se tornar rei de Babilónia, Haburabi explorou ao máximo a força dos seus exércitos. Ao transmitir informações políticas contraditórias por intermédio dos seus embaixadores, conseguiu confundir os outros monarcas e acabou por conquistar toda a Mesopotâmia. É durante o período de paz que se seguiu a estes acontecimentos que Hamurabi promulgou as suas célebres leis. Na antiguidade, o seu código foi o documento legal mais vastamente reconhecido. Foram encontradas (Seria um monumento monolítico talhado em rocha de diorito, sobre o qual se dispõem 46 colunas de escrita cuneiforme acádica, com 282 leis em 3.600 linhas. A numeração vai até 282, mas a cláusula 13 foi excluída por superstições da época. A peça tem 2,5 m de altura, 1,60 metro de circunferência na parte superior e 1,90 na base.) cópias destas leis em vários locais, desde Nínive na Assíria até Susa em Elam. Um grande número dessas leis é relativamente semelhante às leis mosaicas da Bíblia. Mas nenhuma é idêntica ao Decálogo. As leis de Moisés e de Hamurabi taram de casos concretos. Trata-se menos de leis do que de directivas para os juízes. Se alguém cometesse um delito, deveria receber uma punição adequada. Este tipo de leis dá mais relevância à aplicação de punições justas do que à prevenção do mal. No entanto, é evidente que, para evitar as punições, era melhor não cometer o delito. Os dez Mandamentos da Bíblia são particulares e únicos. Denominamo-los “leis apodícticas”, porque apresentam interdições e avisos claros. As analogias entre certas leis e mitos babilónicos por um lado, e as prescrições mosaicas e outros elementos bíblicos por outro, levaram a conclusões surpreendentes no final do século XIX. Assim, supunha-se que a Bíblia era uma adaptação das leis e das histórias babilónicas. Não há qualquer prova que suporte esta teoria. Seria mais lógico acreditar que ambas provêm de uma fonte comum: a revelação divina à humanidade. Enquanto os patriarcas conservaram as mensagens de Deus na sua forma original, a tradição babilónica deformou-as e adaptou-as às suas próprias necessidades. Seja como for, as semelhanças entre as leis de Moisés e as de Hamurabi ajudam-nos a situar melhor os livros de Moisés no seu contexto histórico. As leis de Moisés enquadram-se perfeitamente no período e no meio cultural mencionado pela Bíblia.
A primeira dinastia babilónica subsistiu cerca de duzentos anos. Durante esses dois séculos, Babilónia tornou-se o maior centro de civilização na Mesopotâmia. A sua fama foi tal que conseguiu manter a sua reputação de centro da ciência e da cultura durante quase dois mil anos, mesmo quando outras cidades ou outros impérios controlaram a região. Por isso, não é de admirar que Babilónia se tenha tornado um símbolo importante na Bíblia. Babilónia pode não ter sido a cidade mais poderosa de todos os tempos, mas do ponto de vista cultural, foi, certamente, a mais célebre do mundo antigo.

29/07/2010

A ASSÍRIA

Os primeiros Assírios conhecidos datam do tempo da primeira dinastia babilónica, mas só mil anos mais tarde começaram a adquirir uma força internacional. Eles conheciam a escrita cuneiforme e herdaram a cultura suméria e babilónica, mas é sobretudo a sua crueldade excepcional que dá origem à sua reputação. Uma escultura conhecida mostra um rei a comer copiosamente para festejar a sua vitória numa batalha importante, rodeado pela cabeças dos reis vencidos penduradas em árvores e oscilando ao vento. Os palácios assírios eram ornamentados com baixos-relevos representando os exércitos assírios a atacar. Neles podem ver-se os defensores das cidades sitiadas em completa miséria; fugitivos escapavam pelos portões da cidade quando esta estava em chamas. Os prisioneiros eram empalados no alto de colinas: eram espetados em paus pontiagudos que trespassavam todo o seu corpo. Se nenhum órgão vital fosse atingido, eram simplesmente abandonados até morrerem de fraqueza. Foi provavelmente este o instrumento de tortura que Haman mandou construir para Mardoqueu (livro de Ester). Não é pois de admirar que Judá e Israel estivessem aterrorizados perante o poder assírio. Algumas descobertas arqueológicas mostram-nos como estes reinos se preparavam para uma invasão assíria.
1. Passagem do profeta Jonas por Ninive.
Neste contexto, o grande receio do profeta Jonas de se deslocar a Nínive, capital da Assíria, torna-se fácil de compreender. Na sua imaginação, ele já se via provavelmente encarcerado numa jaula com leões. Não era possível sair-se ileso quando alguém se deslocava à capital do império mais poderoso e mais cruel do mundo para formular algumas críticas!
A maior parte dos que estudam a história antiga consideram o relato de Jonas como uma ficção. No entanto, sabemos que teve lugar uma evolução interessante durante o reinado de um dos reis assírios que viveu na época de Jonas. Como todos os povos da antiguidade, os Assírios veneravam centenas de divindades. Mas existem fortes indícios que levam a crer que eles terão passado a uma certa forma de monoteísmo durante o reinado de Adad-Nirari III no século VIII a.C.. É verdade que se tratava do deus Nabu, e não do Deus de Israel. Mas esta conversão ao monoteísmo é única nos anais da História antiga. Não temos a certeza de isto ter sido devido à obra de Jonas, mas de qualquer forma é uma coincidência interessante.
2. Uma nova prática: a deportação.
Os Assírios introduziram uma prática muito particular: deportavam populações inteiras para todos os cantos do seu império. O rei Tiglat-Piléser III (conhecido na Bíblia pelo seu nome babilónico Pul) foi o seu iniciador em meados dos século VIII a.C..Por essa razão, o relato bíblico, que conta a deportação de Israel depois da queda de Samaria em 722 antes da nossa era, enquadra-se perfeitamente na história assíria. A historicidade deste relato bíblico não pode mais ser posta em causa.
As esculturas monumentais nos palácios e nos templos assírios ajudam-nos a compreender melhor o que são os querubins da Bíblia. Nós não sabemos qual o aspecto dos querubins celestes. As representações assírias tinham, quanto a elas, sempre as mesmas características: um corpo de leão ou de touro, asas de águia e cabeça humana. A sua função era proteger o acesso à sala do trono e aos locais sagrados. Elas estavam lá para inspirar respeito e temor ao visitante. Os querubins da Bíblia parecem ter funções semelhantes. Eles estavam lá para guardar o acesso ao Jardim do Éden (com espadas flamejantes aterradoras). Podiam ver-se sobre os muros do templo de Salomão onde deviam inspirar respeito aos sacerdotes de serviço. Da mesma forma, o objecto mais sagrado do templo, a arca da aliança, era guardado por dois querubins.

20/07/2010

OS HITITAS

Os hititas são um povo nómada procedente do Cáucaso, estabelecem um reino na Capadócia em 1640 a.C., tendo Kussar como capital. Empreendem uma política expansionista em direção à Síria, à Babilónia e ao Egito, mas são dominados pelos gregos (aqueus) em 1200 a.C. Desenvolvem a mineração de ferro, a agricultura, o artesanato e o comércio nos mercados e caravanas. Servos e escravos (prisioneiros de guerra ou por dívidas) encarregam-se do trabalho. Ricos comerciantes e a nobreza administram os negócios do Estado por meio de uma monarquia hereditária. O rei centraliza o poder: é juiz supremo, sumo-sacerdote e chefe do Exército. Possuem normas de direito nas quais são previstas penas pecuniárias (pagas com dinheiro), privação de liberdade e escravidão. Criam as escritas hieroglífica e cuneiforme. Politeístas, cultuam divindades da natureza.
A descoberta dos Hititas deu-se durante o século XIX e proporcionou a confirmação revolucionário do relato bíblico. Os Hititas construíram um império poderoso nos séculos XIV e XIII antes da nossa era. Depois, partiram em direção ao Sul, rumo à Síria, e conquistaram o Mitanni, um pequeno império governado pelos Coritas, ameaçando as fronteiras da Palestina, que se encontrava na altura sob o domínio egípcio.
O confronto militar entre o Egipto e os Hititas conduziu a um notável tratado de paz entre estas duas potências. Foram conservadas cópias desta aliança, uma versão em hieróglifos no Egipto e outra em cuneiforme em Hattusas, a capital do império Hitita.
Descobertas recentes na Jordânia sugerem que os Hititas dominavam a parte oriental da Palestina, a fim de proteger os seus interesses a Este. Uma guarnição militar estava ali estacionada e, no momento em que os Hititas se retiraram oficialmente, estes militares tinham-se integrado completamente na população local, um fenómeno muito frequente na Síria e na Palestina. Quando foram aniquilado s no seu país e na sua capital de origem por invasores vindos do Oeste, os Hititas, que se tinham misturado com a população da palestina, mantiveram-se no local. A Bíblia fala destes que escaparam. Urias, (2ª Samuel 11:3,4; 12:24; 1ª Reis 1:11) o Hitita, marido de Batseba, era um deles. Assim constatamos, mais uma vez, que o relato bíblico é digno de confiança.

16/07/2010

O IMPÉRIO NEO-BABILÓNICO

(foto de Placa cuneiforme mencionando os eventos que tiveram lugar entre o último ano de Nabupolasar e o 11º ano de Nabucodonosor, incluindo a tomada de Jerusalém). Um pouco antes do ano 700 a.C., Mérodac-Baladan (Será útil não esquecer os seguintes factos históricos desta época: a Síria é anexada pela Assíria. 721: queda da Samaria e fim do Reino do Norte. 716: Ezequias, rei de Judá (716-687). 703: embaixada de Merodac-Baladan. 701: invasão de Senaquerib. 587: queda de Jerusalém. 539: queda da Babilónia. 538: édito de Ciro. 520-515: reconstrução do Templo. 445-423: Neemias em Jerusalém. 397: Esdras em Jerusalém.), o regente de Babilónia, revoltou-se contra a supremacia assíria. Pertencente ao povo dos Caldeus, recentemente aparecido na ribalta da politica, tinha sido nomeado regente pelas autoridades assírias. Na fase preparatória da sua revolta, ele enviou uma delegação ao rei Ezequias de Judá (2ª Crónicas 20:12-17) na esperança de obter o seu apoio. Aquando desta visita, Ezequias cometeu o erro de mostrar todos os tesouros do templo. O profeta Isaías advertiu o rei de forma extremamente clara e profetizou que os tesouros seriam roubados pelos próprios Babilónicos. Um século mais tarde, a profecia cumpriu-se com precisão por ocasião da tomada de Jerusalém pelos exércitos babilónicos.
O rei assírio Senaqueribe neutralizou a revolta com grande violência e babilónia foi destruída. Mas, com esta atitude, Senaqueribe despoletou a hostilidade de uma grande parte da população não assíria da Mesopotâmia, pois Babilónia era o grande centro da sua cultura, quase como uma cidade santa. O destruidor desta cidade só podia atrair a maldição sobre si mesmo. O fim da revolta teve também repercussões para Judá que tinha colaborado com Mérodac-Baladan. A invasão de Judá por Senaqueribe em 701 a. C. foi uma verdadeira expedição punitiva.

07/07/2010

OS MEDOS E OS PERSAS

Ciro o Grande foi recebido em Babilónia como um herói. A sua reputação de soberano sábio e clemente precedia-o. Segundo o livro de Daniel (Dan. 6), um certo Dário, o Medo, foi rei de Babilónia antes de Ciro durante um curto período. (o relevo representa o rei Dário)
O facto de as fontes não bíblicas não fazerem menção deste Dário, o Medo, levou muitos pesquisadores à conclusão de que Daniel teria inventado este personagem. De facto, tudo parecia indicar que Ciro foi rei de Babilónia desde o início. Isso é verdade para o império Medo-Persa na sua globalidade. No entanto, a capital de Ciro não era Babilónia, mas sim Susa. Neste últimos anos, vários estudos demonstraram que houve textos desta época que foram datados segundo os anos de reinado de Ciro. Mas, ao mesmo tempo, estes textos permitiram compreender que Ciro não foi chamado “rei de Babilónia” com todos os títulos honoríficos que acompanhavam esse estatuto senão um ano e meio depois da queda de Babilónia. Isso poderia sugerir que outra pessoa teve o título de rei durante esse curto período intermédio. Dário, o Medo, tinha 62 anos quando começou a reinar. Já tinha ultrapassado largamente a média de idade na Antiguidade. Por seu lado, Ciro, o Persa, desejava certamente que um Medo ocupasse este lugar importante para que o carácter misto deste império continuasse credível. Chegamos então à conclusão que Daniel provavelmente nos transmitiu informações correctas. Tudo leva a crer que Daniel sabia mais da história de Babilónia do que os autores clássicos.
Ciro prosseguiu a expansão do seu império até este ser o maior que já tinha existido. Foi preciso esperar pelos Romanos para ver aparecer um império ainda maior. O seu território estendia-se então da fronteira do Egipto a Oeste e cobria uma grande parte da Turquia e da Mesopotâmia no centro, até ao Índu e às montanhas do Afeganistão a Este. Os seus sucessores juntaram a isto o Egipto e o resto da Turquia. Por duas vezes, tentaram em vão anexar a Grécia.
No início, os Medos eram mais poderosos do que os Persas, ms sob o reinado de Ciro, a tendência já se tinha invertido.
(relevo do rei Ciro) Os eventos descritos no livro de Ester desenrolam-se em Susa, a capital persa no reinado do rei Xerxes (chamado Assuero na Bíblia). Um texto descoberto parece mencionar o nome de Mardoqueu e um novo estudo da história de Xerxes permitiu encontrar traços da famosa festa durante a qual a rainha Vasti foi afastada, o que torna possível o impressionante percurso de Ester. Durante muito tempo, o livro de Ester com as suas intrigas e o seu ambiente romântico foi considerado como uma espécie de conto da Mil e Uma Noites – erradamente.
A Mesopotâmia não está ligada à história bíblica senão indirectamente. Mas onde as ligações existem, a credibilidade da Bíblia é reforçada desde os períodos mais antigos até aos mais recentes.

(peça cerâmica com o desenho do rei Ciro, Louvre)

03/07/2010

A ARQUEOLOGIA BÍBLICA: AS ESCAVAÇÕES

(foto do Túnel de Warren, escavado por Joabe) A prática das escavações começou por volta de 1860, quando Charles Warren foi enviado a Jerusalém pelo “Palestine Exploration Fund” a fim de aí efectuar escavações. Outros se seguiram e, em breve, as descobertas sucederam-se, incluindo a da célebre estela de Mescha e a de uma inscrição, datada do tempo de Jesus, que proibia aos pagãos o acesso ao tempo de Jerusalém. Mas surgiu outro problema. Muitas vezes, os arqueólogos da época estabeleciam ligações com os eventos bíblicos sem dispor de provas suficientes. Assim, Warren descobriu um certo número de pedras cuidadosamente talhadas perto do local onde supunha ser a localização do templo de Salomão. Baseou-se no facto de a Bíblia dar muita atenção aos feitos de Salomão e destas pedras serem visivelmente de uma qualidade extraordinária. Hoje sabemos que Warren se enganou em quase 900 anos, e que estas pedras pertenciam na realidade ao templo que Herodes, o Grande, tinha mandado construir pouco antes do nascimento de Jesus.
Tínhamos manifestamente necessidade de um quadro cronológico.
Para o período que sucedeu a invasão de Alexandre, o Grande, podíamos servir-nos das moedas, mas era preciso outra coisa para os períodos anteriores. Em 1890, o arqueólogo britânico Flinders Petrie deu origem a uma nova revolução no meio da arqueologia bíblica. (foto pedra/estela moabita onde Mescha, rei de Moabe, relata as suas vitórias sobre os israelitas, 2 Reis 3:4) Aquando das escavações em Tell el Hésy, a sudoeste de Jerusalém, a sua atenção voltou-se para milhares de peças de cerâmica. Os arqueólogos anteriores tinham posto de lado esses objectos aparentemente sem interesse. Petrie, ao contrário, anotou escrupulosamente o local onde eles foram encontrados. Assinalou as características diferentes e concluiu que essas peças podiam servir de chave para datar as descobertas arqueológicas. Na altura das primeiras escavações na Terra Santa, os dados foram tratados com negligência. Centenas de trabalhadores cavaram buracos sem que houvesse uma qualquer planificação. Por isso, não é de estranhar que as descrições dessas escavações sejam imprecisas e incompletas. Dispor de mais de uma pessoa para supervisionar os trabalhos era algo excepcional. O mesmo se pode dizer das escavações de R.A.S. Macalister em Guézer, a oeste de Jerusalém. Se bem que estas escavações fossem muito bem organizadas para a época (1910), a maior parte dos arqueólogos actuais pensa que as suas informações são inúteis, por falta de descrição meticulosa dos dados. Muitas das suas afirmações são agora consideradas erradas, mas a reinterpretação dos dados é muito difícil por falta de informações precisas.
(foto Meguido, a norte da Palestina, na planície de Armagedom) Nos anos 30, a Universidade de Chicago lançou-se no projecto arqueológico mais ambicioso até então empreendido. Tratava-se de Meguido, a cidade ligada ao Armagedom no livro de Apocalipse. O objectivo era explorar todo o local, de alto a baixo, e não deixar nada para os exploradores que pudessem seguir-se. Apesar do considerável apoio financeiro da família Rockefeller, este ambicioso projecto teve de ser abandonado ao fim de algum tempo, por falta de dinheiro. A expedição foi bem sucedida, mas, felizmente, grande parte do local de Meguido foi deixada para os arqueólogos posteriores. De facto, desde dos anos 30, a ciência arqueológica evoluiu consideravelmente.
Uma evolução interessante ocorreu por volta de 1950, quando o célebre arqueólogo israelita Yigael Yadin convidou voluntários para participarem nas escavações do forte herodiano de Masada, no deserto da Judeia, perto do Mar Morto. Estes voluntários estavam dispostos a pagar do seu bolso para participarem na aventura arqueológica.
Assim, sem obrigação de pagar aos trabalhadores, o custo desta campanha foi muito reduzido. Desde então, outras escavações foram efectuadas em colaboração com voluntários, o que permitiu obter mais resultados com um menor investimento financeiro. Actualmente, todos os anos se realizam várias escavações em Israel e na Jordânia, em colaboração com voluntários.
(foto de trabalhos de arqueólogos modernos)