03/07/2010

A ARQUEOLOGIA BÍBLICA: AS ESCAVAÇÕES

(foto do Túnel de Warren, escavado por Joabe) A prática das escavações começou por volta de 1860, quando Charles Warren foi enviado a Jerusalém pelo “Palestine Exploration Fund” a fim de aí efectuar escavações. Outros se seguiram e, em breve, as descobertas sucederam-se, incluindo a da célebre estela de Mescha e a de uma inscrição, datada do tempo de Jesus, que proibia aos pagãos o acesso ao tempo de Jerusalém. Mas surgiu outro problema. Muitas vezes, os arqueólogos da época estabeleciam ligações com os eventos bíblicos sem dispor de provas suficientes. Assim, Warren descobriu um certo número de pedras cuidadosamente talhadas perto do local onde supunha ser a localização do templo de Salomão. Baseou-se no facto de a Bíblia dar muita atenção aos feitos de Salomão e destas pedras serem visivelmente de uma qualidade extraordinária. Hoje sabemos que Warren se enganou em quase 900 anos, e que estas pedras pertenciam na realidade ao templo que Herodes, o Grande, tinha mandado construir pouco antes do nascimento de Jesus.
Tínhamos manifestamente necessidade de um quadro cronológico.
Para o período que sucedeu a invasão de Alexandre, o Grande, podíamos servir-nos das moedas, mas era preciso outra coisa para os períodos anteriores. Em 1890, o arqueólogo britânico Flinders Petrie deu origem a uma nova revolução no meio da arqueologia bíblica. (foto pedra/estela moabita onde Mescha, rei de Moabe, relata as suas vitórias sobre os israelitas, 2 Reis 3:4) Aquando das escavações em Tell el Hésy, a sudoeste de Jerusalém, a sua atenção voltou-se para milhares de peças de cerâmica. Os arqueólogos anteriores tinham posto de lado esses objectos aparentemente sem interesse. Petrie, ao contrário, anotou escrupulosamente o local onde eles foram encontrados. Assinalou as características diferentes e concluiu que essas peças podiam servir de chave para datar as descobertas arqueológicas. Na altura das primeiras escavações na Terra Santa, os dados foram tratados com negligência. Centenas de trabalhadores cavaram buracos sem que houvesse uma qualquer planificação. Por isso, não é de estranhar que as descrições dessas escavações sejam imprecisas e incompletas. Dispor de mais de uma pessoa para supervisionar os trabalhos era algo excepcional. O mesmo se pode dizer das escavações de R.A.S. Macalister em Guézer, a oeste de Jerusalém. Se bem que estas escavações fossem muito bem organizadas para a época (1910), a maior parte dos arqueólogos actuais pensa que as suas informações são inúteis, por falta de descrição meticulosa dos dados. Muitas das suas afirmações são agora consideradas erradas, mas a reinterpretação dos dados é muito difícil por falta de informações precisas.
(foto Meguido, a norte da Palestina, na planície de Armagedom) Nos anos 30, a Universidade de Chicago lançou-se no projecto arqueológico mais ambicioso até então empreendido. Tratava-se de Meguido, a cidade ligada ao Armagedom no livro de Apocalipse. O objectivo era explorar todo o local, de alto a baixo, e não deixar nada para os exploradores que pudessem seguir-se. Apesar do considerável apoio financeiro da família Rockefeller, este ambicioso projecto teve de ser abandonado ao fim de algum tempo, por falta de dinheiro. A expedição foi bem sucedida, mas, felizmente, grande parte do local de Meguido foi deixada para os arqueólogos posteriores. De facto, desde dos anos 30, a ciência arqueológica evoluiu consideravelmente.
Uma evolução interessante ocorreu por volta de 1950, quando o célebre arqueólogo israelita Yigael Yadin convidou voluntários para participarem nas escavações do forte herodiano de Masada, no deserto da Judeia, perto do Mar Morto. Estes voluntários estavam dispostos a pagar do seu bolso para participarem na aventura arqueológica.
Assim, sem obrigação de pagar aos trabalhadores, o custo desta campanha foi muito reduzido. Desde então, outras escavações foram efectuadas em colaboração com voluntários, o que permitiu obter mais resultados com um menor investimento financeiro. Actualmente, todos os anos se realizam várias escavações em Israel e na Jordânia, em colaboração com voluntários.
(foto de trabalhos de arqueólogos modernos)

18/06/2010

TIRACA, FARAÓ DA DINASTIA ETÍOPE QUE OCUPOU O EGIPTO

(foto - faraó negro em adoração) TIRACA. Reinou na Etiópia (de certo modo, o antigo Sudão Anglo-egípcio) e no Egito (691 a 665 a.C.). Quando Senaqueribe, imperador da Assíria, em 701 a.C., estava fazendo guerra a Ezequias, ouviu falar na marcha de Tiraca (que parece ter sido chamado em auxílio do que era então rei do Egito), para o combater; e mandou então, pela segunda vez, intimar o rei de Judá a que entregasse Jerusalém (2 Rs 19.9; Is 37.9). E provável que fosse um preto, como insinua o seu posterior inimigo e conquistador Esar-Hadom.
Egipto nome deriva do grego Aiguptos, “casa do (deus) Ptah”, mencionado como Hikuptah nas cartas de Amarna. Os antigos egípcios chamavam à sua terra Km.t, “(a terra) preta”, por causa do contraste entre o solo rico e escuro do fértil vale do Nilo e o deserto que fica para além do rio. Contudo, um outro nome dado ao Egipto pelos seus nativos significaria “duas terras”, ou seja, a união entre o Egipto Superior e o Egipto Inferior. As cartas da Amarna mostram que, no século XIV AC, os cananeus chamavam Misri ao Egipto. A palavra hebraica Misrayim (ver Mizraim) tem duas terminações que apontarão para as duas principais regiões do país, o Egipto Superior e o Egipto Inferior. Os egípcios, hoje em dia, usam o nome arábico Misr.
As principais fontes de informação sobre este difícil assunto são listas antigas de reis, alguns dados astronómicos e dados históricos mencionando os anos de reinado dos reis ou a extensão dos seus reinos. A divisão em dinastias foi efectuada por Manetho, um sacerdote egípcio que escreveu a sua história sobre o Egipto na Grécia e no início do século III AC. Esta obra perdeu-se e só se encontram disponíveis algumas porções em sumários ou referências feitas por Josefo, Africanus e Eusébio. O conseguir-se uma cronologia correcta tem sido a tarefa mais difícil que os egiptólogos tomaram a seu cargo, desde que se conseguiram ler os antigos registos egípcios. Os eruditos ainda não chegaram a conclusões unânimes e não foram estabelecidas datas relativamente à história antiga. As datas fornecidas por eruditos antigos, no que toca ao início da história do Egipto com a primeira dinastia (Petrie: 4777 AC), não são aceites por ninguém. Este acontecimento é situado pelos egiptólogos entre 3100 AC e 2800 AC. Só a partir do Reino Central as datas disponíveis se tornam seguras e a primeira data absoluta a que se chegou, com base em dados astronómicos, é o ano de 1991 AC, o início da 12ª dinastia.
Depois do que fica exposto falemos de Ramsés II, governou durante quase setenta anos (1304-1238 AC). Lutou contra os heteus em Cades e depois assinou um tratado concedendo-lhes a posse da Síria. Tornou-se mais conhecido do que qualquer outro rei do Egipto porque o seu longo reinado o capacitou para levar a cabo um extenso programa de construções. Apropriou-se de vários edifícios pertencentes a reis anteriores, desmantelou-os e usou os materiais nas suas próprias estruturas, nas quais colocou o seu nome, como construtor.
A dinastia etíope: O Domínio dos Reis-Sacerdotes, Líbios, Etíopes e Assírios - Dinastias 21-25 (1101-663 AC). Durante a 21ª dinastia, reis rivais reinaram em Tanis e Tebes, sendo o de Tebes o sumo sacerdote de Amom. O Egipto encontrava-se numa situação tão debilitada, que até os seus embaixadores foram humilhados em países estrangeiros. A união foi mais uma vez conseguida por reis de descendência líbia, que formaram a 22ª dinastia, ou dinastia líbia. O primeiro destes reis, Sheshonk I (o Sisaque bíblico) (950-? AC), efectuou uma tentativa ambiciosa para restaurar o império. Contudo, a sua campanha militar na Palestina não obteve um sucesso duradoiro, não restaurando os territórios perdidos a este de Egipto, embora tivesse conquistado Jerusalém e muitas outras fortalezas de Judá e Israel. Os sucessores de Sheshonk foram governantes fracos e o Egipto continuou somente uma sombra do seu passado.
Após um reinado de quase 200 anos por parte dos líbios, os egípcios recuperaram o trono (24ª dinastia) (750-715 AC) mas ocuparam-no somente durante alguns anos. Não demorou a que fossem substituídos pelos etíopes, de Núbia, que, como reis da 25ª dinastia (750-663 AC), dominaram os egípcios durante quase nove décadas. Os Faraós etíopes tiveram que lutar contra os assírios que, nessa altura, se tinham tornado na nação mais poderosa do mundo. Em 670 AC, Esaradom, da Assíria, conquistou o Egipto e transformou-o numa província assíria, estatuto esse que se manteve durante vários anos.
Descendentes dos Núbios:

11/06/2010

OS SAÍTAS – EGIPTO

O Templo de Salomão foi decretado como único local de veneração a Jahvé, em todo o reino de Judá, pelo rei Josias (século VII a.C.). Depois de ter descoberto no Templo o Livro da Lei (que aparentemente desconhecia), Josias reformou o culto a fim de evitar as calamidades previstas pela profetisa Huldah (2 Reis 22, 1-20). Em consequência dessa descoberta do Livro da Lei, Josias mandou expulsar do Templo as Tecedeiras Sagradas, devotadas à deusa-Mãe Asherah. A mais antiga representação da deusa Asherah, esculpida numa caixa de marfim, foi encontrada nas escavações da antiga cidade de Ugarit (actual Ras Shamra), na Síria, e data do século XIV ou XIII a.C. Deusa semita de grande antiguidade, o seu nome completo significa «Aquela-Que-Se-Passeia-No-Mar». De acordo com textos escritos em caracteres cuneiformes ugaríticos, em tabuínhas de barro, o esposo de Asherah era o deus El (deus do céu, e depois Baal, «Senhor»), e foram progenitores de 70 deuses. A deusa da fertilidade e da regeneração Asherah é citada no Antigo Testamento bíblico (1 Reis 15, 13; 2 Crónicas 15, 16), e tem sido equiparada à deusa-padroeira das Tecedeiras Sagradas egípcias, hebraicas, cananitas, sírias, gregas e latinas, devotas de Neith-Asherah-Manevrah-Athena-Minerva…

Homero, na Odisseia, ao referir-se a Athena, deusa guerreira e sapiencial, diz em repetidos passos que era «hábil em primorosos lavores», referindo-se à arte de tecer em que a deusa era exímia e que tutelava. Athena — a quem os romanos chamavam Minerva — identificava-se, segundo Platão (Timeu, 20d), com a deusa Neith, uma das mais antigas da Líbia e do Egipto, também guerreira e tecedeira, misteriosa associação que une na mesma tessitura as estratégias rituais da sabedoria, do amor, do combate e da defesa do frágil corpo contra o assalto das energias negativas das «trevas exteriores», conforme já tivemos ocasião de realçar no capítulo anterior.

No Livro dos Mortos dos egípcios a deusa Neith — cujo nome significa «a que existe», ou a eterna — é invocada como a «Senhora de Saís» (Livro dos Mortos XLII, 7; CLXIII, 13), cidade que se tornou célebre pelos tecidos de linho que aí se fabricavam e onde a deusa tinha um oráculo e um templo admirável pela sua grandiosidade e riqueza, que fora mandado edificar pelo rei Ahmose I do Egipto, fundador da 18.ª dinastia. Um dos seus santuários era uma escola iniciática de sacerdotisas-tecedeiras, ou bordadoras, chamada Hait Monkhitu («Casa dos Panos»), e aí se urdiam e bordavam as vestes para adorno dos deuses e dos mortos.

Depois da derrota dos Assírios face aos Medos e aos Babilónios no fim do séc. VII a.C., os Egípcios autóctones reconquistaram o poder e tentaram voltar a colocar a Palestina sob a sua alçada . o faraó Neco II compreendeu que Babilónia, a nova detentora do poder na Mesopotâmia, era uma ameaça muito maior para o Egipto do que o império Assírio, condo a desaparecer. Por isso, fez uma aliança com a Assíria, enquanto que Judá, sob a direcção do bom rei Josias, continuava aliado dos Babilónios. Em 609 a.C., Neco saiu do Egipto em direcção ao Norte da Assíria, onde os assírios e os babilónios se defrontavam. Josias tentou pará-los em Megido, mas perdeu a batalha e a vida.
Reza uma antiga tradição que os saítas, orgulhosos da importância e beleza dos seus tecidos e urdumes, expunham em especiais festas a estátua da deusa na figura duma mulher com uma lançadeira de tear na mão direita, e davam a esta imagem o apelativo de Manevrah, que significaria «ofício de tecelagem» — donde teria derivado o nome de Minerva.

09/05/2010

TELL HARIRI-MARI


Mari era uma antiga cidade do médio Eufrates, cerca de 11 Km a noroeste de Abu-Kemal (a atual Tell Hariri). Estava localizada numa interseção de rotas de caravanas: uma delas passava pelo deserto sírio e se estendia até às margens do rio Eufrates; outra rota começava no norte da Mesopotâmia e atravessava os vales dos rios Cabur e Eufrates. Então, Mari estava localizada num centro estratégico, tornando-se assim num importante e prospero lugar, centro de comercio e comunicações. Sua população era compósita: babilônicos; assírios; semitas do reino de Iamcade-Alepo, hurruianos, cananeos, suteanos e benjamitas.
I. História
Zinri-Lim, filho de Iacdum-Lim, tomou posso do trono (cerca de 1790-1761 a.C). Neste momento, Mari tornou-se um pequeno reino independente, por dezenove anos (cerca de 1779-1761 a.C). Neste período, parece que Mari era o mais importante Estado da região, com um extensão de aproximadamente 500 kilometros desde da fronteira da Babilônia até a Síria. O palácio de Zinri-Lim começou a ser escavado em 1936. Foram encontrados cerca de 20.000 tabletes de argila. Muitos desses tabletes registram correspondências diplomáticas por parte de Zinri-Lim (ultimo rei de Mari) com Hamurabi, da Babilônia. São as chamadas Cartas de Mari. Hamurabi, da Babilônia, reduziu Zinri-Lim à posição de rei vassalo. A cidade foi destruída pelos cassitas em 1742 a.C.

II. A Profecia nas Cartas de Mari
As descobertas das cartas de Mari possibilitaram realizar a correlação entre a profecia israelita e a profecia no Oriente Próximo Antigo. Pois, as cartas de Mari mencionam várias pessoas que desempenhavam funções oraculares. No entanto, ainda questiona-se até que ponto a profecia de Mari possui laços culturais e históricos com os profetas de Israel.

Os emissores de oráculos em Mari podem ser divididos em dois grupos gerais: aqueles que possuem alguns título e aqueles que não possuem nenhum título.

A. Emissários que têm títulos especiais Tais indivíduos desempenhavam posições relativamente bem estabelecida dentro da estrutura social de Mari. São eles:

1.Apilu/ apiltu. Provavelmente é a forma participal do verbo apalu, “responder”. A designação “aquele que responde” pode sugerir que os apilus davam respostas a perguntas propostas à divindade.
2.Muhhû / muhhutu. Deriva-se do verbo mahû, “entrar em transe”. O muhû, pois, é alguém em transe ou estático. Eles desempenhavam funções cultuais.
3.Assinu. Aparece em três cartas de Mari. È conhecido em fontes posteriores como membro pessoal do culto de Ishtar. As cartas de Mari indicam que o assinnu era um ator que assumia papel feminino em dramas cultuais, pois, era possuído pela divindade feminina Ishtar.
4.Qabbatum. Pode significar “locutor”. Pouco mencionado nas cartas e difícil de ser caracterizado.
Sabemos que os três primeiros títulos relacionam-se com o período de Zimrilim, por volta de 1700 a.C. Eles pertenciam a uma classe de homens e mulheres que recebiam alguma ordem da divindade; relacionavam-se com algum templo e por meio de presságios, sonhos ou visões e experiências estáticas transmitiam um oráculo.

Um extrato menciona-se o apilum, que aparentemente prometeu o rei vitória e domínio sobre outras nações:

Fala ao meu senhor: Assim (diz) Mukannishum, teu servo: eu tinha oferecido os sacrifícios a Dagan pela vida de meu senhor. O “respondente” de Dagan de Tutal ergueu-se; assim falou ele, a saber: “Babilônia, estas ainda disposta? Eu te conduzirei para a armadilha (?) ... As casas / famílias dos sete parceiros e quaisquer que (sejam) sua possessões eu porei nas mãos de Zimrilim”[1].

B. Emissários sem título
Treze dos emissores de oráculos em Mari não trazem nenhum título particular referente às suas atividades revelatórias. Somente em alguns casos, pode-se interpretar alguma coisa, mas a preservação dos textos é deficiente. Somente sabe-se que tais emissários entravam em transe e por meio de sonhos emitiam oráculos. Oito dos treze emissários eram mulheres; várias delas eram servas. Um dos homens era sacerdote changu. Outros homens e mulheres eram cidadãos livres.

Varias das mensagens desses emissários relacionavam-se ao Estado: dizem respeito a requerimentos pessoais ao rei; outros emissários transmitiam oráculos da divindade que buscava melhor tratamento ao rei, e ainda outro, dava conselho de como conduzir uma batalha.

BIBLIOGRAFIA
Champlim, R.N., Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol 4. Hagnos, São Paulo: 2001. Verbete Mari, págs 132-133.

Wright, G.E. ,Arqueologia Bíblica. Ediciones Cristandad. Madrid, 1975. págs 50-53.

Fohrer, Georg, História da Religião de Israel, tradução de Josué Xavier; São Paulo: Edições Paulinas, 1982, p. 277 -279.

Wilson, Robert R., Profecia e Sociedade no Antigo Israel, tradução de João Rezende Costa; São Paulo: Edições Paulinas, 1993, p. 96-106.